O futuro do trabalho criativo já começou, e alguns sinais me preocupam

Revisitei o Future of Jobs Report 2025, do World Economic Forum porque têm certos dados ali muito sensíveis e que vale a pena a gente refletir para nos prepararmos melhor. Quando olho para esse relatório a partir do nosso escritório da MaxRender aqui no Canadá, uma coisa fica clara: o impacto da IA no trabalho criativo não é uma previsão distante, é uma reorganização que já começou por aqui e, embora ainda não esteja tão forte no Brasil, a tendência é isso ir aumentando ao longo dos próximos meses.

O relatório estima que, até 2030, 170 milhões de novos empregos devem ser criados, enquanto 92 milhões podem ser deslocados, resultando em um crescimento líquido de 78 milhões de vagas. O número parece positivo, mas ele esconde uma questão importante: nem todo mundo que está hoje em uma função ameaçada vai migrar naturalmente para uma função em crescimento. Essa transição exige leitura de mercado, adaptação e, principalmente, novas habilidades.

Segue o bloco revisado com os percentuais em negrito. Usei “aproximadamente” porque os dados vêm da leitura do gráfico do relatório, não de uma tabela numérica aberta.

As funções que entram em zona de pressão

Dentro do recorte que mais conversa com o universo dos nossos leitores, alguns cargos chamam atenção. O relatório coloca Graphic Designers entre as funções com queda projetada de aproximadamente -10% até 2030, algo especialmente sensível para quem trabalha com criação visual, publicidade, interfaces, motion, conteúdo e direção de arte. Não significa que design vai acabar, mas indica que parte do trabalho mais operacional, repetitivo ou baseado apenas em execução visual tende a perder valor.

Além de Graphic Designers, outras funções em queda que merecem atenção são Data Entry Clerks (digitadores), com queda aproximada de -34%, Administrative Assistants and Executive Secretaries, com cerca de -20%, Printing and Related Trades Workers, com aproximadamente -18%, e Telemarketers, com queda próxima de -14%. Em comum, muitas dessas ocupações têm tarefas que podem ser automatizadas, reorganizadas ou absorvidas por sistemas digitais. Trouxe esses dados que não estão tão relacionados assim com o nosso ecossistema para percebermos os impactos também de forma mais abrangente. 

Gráfico de crescimento de funções tecnológica
Projeção de crescimento de funções tecnológicas

O dado que mais me preocupa é justamente esse: quando uma ferramenta começa a fazer mais rápido aquilo que antes era vendido como entrega principal, o profissional precisa mudar o centro do seu valor. O problema não é usar IA. O problema é continuar se posicionando como alguém que apenas executa e este é um alerta que eu, particularmente, tenho feito em análises mais profundas no Premium, um ambiente exclusivo com uma edição por semana com análise editorial, contexto de mercado e implicações práticas para quem acompanha e trabalha com computação gráfica, games e novas tecnologias. 

As funções que devem crescer

Ao mesmo tempo, o relatório também mostra caminhos muito claros de crescimento. Entre as funções que mais devem avançar em percentual até 2030 estão AI and Machine Learning Specialists, com crescimento aproximado de +82%, Software and Applications Developers, com cerca de +57%, UI and UX Designers, com aproximadamente +48%, Data Analysts and Scientists, com cerca de +41%, e Information Security Analysts, com crescimento próximo de +39%. Para o nosso público, isso é importante porque mostra que o futuro da criação não está separado da tecnologia. Na verdade, ele está cada vez mais misturado com ela.

Um artista, designer ou desenvolvedor que entende interface, dados, automação, IA e segurança digital passa a atuar em outro nível. Ele deixa de ser apenas alguém que entrega peças ou assets e começa a participar da construção de produtos, experiências e sistemas.

No Canadá, esse movimento também aparece no relatório. Segundo o WEF, 97% das empresas canadenses esperam que IA e tecnologias de processamento de informação transformem suas operações, com crescimento previsto para funções como Security Management Specialists, AI and Machine Learning Specialists e Software Developers.

O ponto não é disputar com a IA, então qual é?

Eu não vejo esse cenário como uma sentença contra profissionais criativos. Eu vejo isso mais como um alerta. O mercado não está dizendo que criatividade perdeu valor, mas está deixando claro que a criatividade sem adaptação pode ficar vulnerável.

Se você trabalha com design, 3D, games, vídeo, interface ou conteúdo visual,  o caminho não é se desesperar ou abandonar sua área. Eu apostaria em ampliar os horizontes de atuação. Por exemplo, entender IA de verdade, aprender a prototipar melhor, dominar ferramentas digitais, pensar em experiência do usuário e saber conversar com tecnologia. Fazendo isso, você minimiza as possibilidades de ficar obsoleto.