Tem algo de estranho, no bom sentido, em como a Capcom resolveu falar de inteligência artificial. Na Capcom Open Conference RE:2026, evento técnico que a empresa realiza para desenvolvedores e estudantes no Ariake Convention Hall, em Tóquio, nos dias 2 e 3 de outubro, com nova rodada em Osaka em 17 e 18, o programador Satoshi Ishida apresentou o REX, sigla de RE neXt Engine. É o projeto que vai levar a RE Engine, motor de Resident Evil, Monster Hunter, Street Fighter e de quase 30 jogos desde Resident Evil 7, para o que a empresa chama de engine da geração da IA.
A Capcom descarta jogar o motor fora e começar outro do zero. A ideia é substituir as partes antigas da RE Engine por módulos novos, um de cada vez, com nomes como RE:Dox, RE:Log, RE:Flows, RE:UI e RE:AssetStream. O que une todos eles é uma preocupação que, até pouco tempo, ninguém teria em uma engine, a de ser legível para uma máquina. A empresa quer unificar a linguagem de programação para que humanos e IA leiam o mesmo código, e alguns desses módulos já foram publicados na internet justamente para servir de material de treino.
O objetivo prático é que a IA consiga entender um programa, escrevê-lo, rodar uma partida de teste sozinha e procurar bugs na build. O RE:UI, por exemplo, foi separado das funções de exibição de tela para que testes rodem em segundo plano, sem ninguém olhando o monitor. A programação do evento também incluiu o REAssistAI, assistente baseado em LLM que dá acesso a dez anos de conhecimento interno de desenvolvimento.
O discurso sobre arte corre no sentido contrário. Segundo o vice-presidente Shinichi Inoue, a Capcom não usa IA para gerar arte e vê a tecnologia como forma de liberar o potencial dos criadores. É uma divisão clara entre o que se automatiza e o que se protege, e me pergunto quanto tempo essa linha resiste dentro de um mesmo pipeline.
A Epic seguiu outro caminho quando a Unreal Engine 5.8 ganhou uma IA que controla o editor, colocando o agente na mão de quem usa a ferramenta. A Capcom parece mais interessada em mexer no motor por dentro, onde o jogador nunca vai ver.
Os jogos que mais pesam no caixa da empresa vão nascer desse motor nos próximos anos, e o testador humano de QA, aquele que passa semanas repetindo a mesma fase atrás de um bug, é a função que o REX descreve com mais detalhe.