Uma raposa parada no meio de um pátio de cascalho, olhando para duas pessoas desfocadas no primeiro plano, é uma das imagens que a Digital Domain escolheu para mostrar o seu trabalho em Disclosure Day. Fico pensando que poucas pessoas na sala de cinema perceberam que aquilo era CG. O estúdio, fundado em Los Angeles e com escritórios em Vancouver, Montreal, Hyderabad, Xangai e Hong Kong, foi o principal fornecedor de efeitos visuais do filme de Steven Spielberg e publicou nesta semana um breakdown de mais de quatro minutos, destacado pelo CG Channel no dia 21.
Os números dão a escala. Foram 418 planos finais entregues por quase 400 artistas espalhados por esses escritórios. Disclosure Day estreou nos cinemas em 12 de junho, pela Universal, com Emily Blunt no papel de uma meteorologista que entra num esforço para expor provas escondidas de vida extraterrestre, e chegou ao streaming no Peacock em 9 de outubro. O trabalho inclui alienígenas fotorrealistas, os animais que eles usam como disfarce, entre eles um cervo e um cardeal vermelho, uma perseguição de trem com 40 planos, uma paisagem de inverno e um círculo em plantação visto de cima.
A direção de arte foi buscar referência fora do cinema. Segundo a página do projeto, o visual partiu de relatos reais de óvnis e de imagens de câmera térmica militar, aquelas gravações FLIR em preto e branco que circulam desde que o Pentágono liberou vídeos de objetos não identificados. Ficção científica estilizada ficou de fora. Isso inverte o trabalho de sempre, porque o efeito precisa parecer menos espetacular do que poderia ser.
Para segurar tanta criatura entre seis escritórios, a Digital Domain criou um sistema de músculos de três camadas. A mais detalhada fica com os personagens de destaque, a intermediária atende planos médios e a terceira é automatizada, feita para andar rápido em plano de fundo. Lembra o problema que a Framestore enfrentou com o Appa de Avatar, onde o peso de um corpo grande precisava ser crível em cada passo, só que multiplicado por um elenco inteiro de bichos.
Talvez o melhor elogio para um sistema desses seja exatamente a cena da raposa. Ela não faz nada além de olhar, e cada fio de pelo, cada mudança de peso nas patas, passou por uma das três camadas de músculo antes de chegar à tela sem que ninguém notasse.