Tem uma pergunta que ninguém fez durante meses e que agora, com o filme já em cartaz, ficou impossível de ignorar. Coyote vs. Acme quase não existiu. Não por falta de qualidade, o filme foi terminado, testado, aprovado, e a Warner Bros decidiu enterrá-lo mesmo assim, como baixa fiscal, em novembro de 2023. Só voltou a existir porque o público reagiu forte o bastante pra forçar a venda do projeto pra outro distribuidor, e o filme estreou em agosto deste ano.

Coyote vs Acme
Coyote vs Acme

Achei isso estranho de digerir enquanto assistia ao breakdown de VFX que a DNEG publicou nesta semana. A equipe, liderada por Alexander Seaman e Jelmer Boskma, com Geoffrey Niquet na BUF, passou meses garantindo que o Coyote em CG parecesse ter sido desenhado à mão por Chuck Jones. Ninguém no estúdio estava trabalhando sob risco de virar nota fiscal de novo, mas dava pra sentir esse peso olhando de fora.

A técnica que eles usaram tem nome, sketchviz. Uma equipe desenha poses e expressões em 2D primeiro, depois artistas de 3D e 2D trabalham lado a lado olhando pro desenho original o tempo todo. Alguns planos ficaram totalmente em 2D tradicional, outros passaram pro 3D justamente pra controlar luz, composição, sombra e um grão de textura por cima do Coyote que o 2D puro não segurava tão bem.

Coyote vs Acme nos cinemas

Isso inverte a lógica que a maioria assume sobre pipeline de animação híbrida, a ideia de que CG entra só pra ganhar velocidade ou economizar. Essa equipe usou CG por outro motivo, o controle sobre luz, composição, sombra e um grão de textura que o 2D puro não sustentava.

Chuck Jones passava décadas ajustando a posição de uma pálpebra pra mudar uma expressão inteira do Coyote. A DNEG replicou esse tipo de nuance em CG moderno, plano a plano, pra um filme que uma decisão contábil quase apagou do mapa antes de qualquer plateia ver um segundo dele. Ainda fico pensando no tamanho desse cuidado técnico aplicado a um projeto que por pouco não existiu.

O trabalho sobreviveu à empresa que quase o destruiu.