A segunda edição da HumanX, realizada em San Francisco, consolida o evento como um novo ponto de convergência para o ecossistema global de inteligência artificial.
Reunindo pesquisadores, fundadores, investidores e operadores, a conferência apresentou um panorama amplo das transformações em curso - especialmente no que diz respeito à aplicação prática da IA.

HumanX 2026, em San Francisco: Um novo evento global de inteligência artificial.


Mais do que anúncios isolados, o evento revelou uma mudança estrutural: 
A inteligência artificial está deixando de operar apenas como ferramenta e começa a se aproximar de sistemas que interagem, percebem e simulam o mundo.


A relevância da HumanX também se reflete no perfil de seus palestrantes e participantes.
O evento reuniu nomes centrais do ecossistema de inteligência artificial e tecnologia, como Ray Kurzweil (inventor, futurista e pioneiro em IA), Al Gore (ex-vice-presidente dos EUA e líder em temas de tecnologia, clima e políticas globais), Emmett Shear (fundador da Twitch e ex-CEO interino da OpenAI),  Andy Konwinski (cofundador da Perplexity e Databricks), e Jaime Lien (cofundadora e Chief Scientist da Archetype AI, com atuação em sistemas de percepção e dados comportamentais), além de uma entrevista exclusiva, realizada remotamente, com Jensen Huang (fundador e CEO da NVIDIA, líder global em computação gráfica e IA).

Ray Kurzweil: Pioneiro da IA discute o futuro da tecnologia Al Gore: Tecnologia, clima e governança em perspectiva global
Emmett Shear: IA e sistemas adaptativos centrados no humano Andy Konwinski: Infraestrutura e escala para a proxima geração da IA
Jaime Lien: Percepção e dados comportamentais em IA Jensen Huang (NVIDIA): Participação remota sobre o futuro da IA

Para um evento ainda recente, essa concentração de vozes influentes evidencia não apenas o seu crescimento, mas o papel que começa a desempenhar como ponto de encontro entre tecnologia, pesquisa, mercado e cultura - especialmente em torno da inteligência artificial.


World Models: Quando a IA Começa a Operar Dentro de Ambientes



Painel de Fei-Fei Li sobre world models e a evolução da IA em direção à simulação do mundo real (Panorâmica).


Painel de Fei-Fei Li sobre world models e a evolução da IA em direção à simulação do mundo real (Detalhe).

O eixo mais relevante observado ao longo do evento foi o avanço dos chamados world models - modelos capazes de representar, prever e simular estados do mundo.

A palestra conduzida por Fei-Fei Li* - também chamada de madrinha da AI" - destacou justamente esse ponto: estamos entrando em uma fase em que a IA precisa compreender não apenas dados, mas dinâmicas do mundo real.

À frente de uma empresa focada em percepção e modelagem do ambiente, sua abordagem aponta para uma direção clara: a próxima geração de IA será construída a partir de dados comportamentais, espaciais e temporais — e não apenas texto ou imagem.

Isso representa uma mudança profunda.
Se antes a IA respondia a comandos, agora ela começa a operar dentro de contextos.
E isso aproxima esses sistemas muito mais de motores de simulação e engines de jogo do que de ferramentas tradicionais de software.

Para o universo da computação gráfica, esse movimento é particularmente significativo.
O 3D deixa de ser apenas representação visual e passa a integrar a própria lógica de funcionamento da inteligência.

* Fei-Fei Li - Cientista da computação mais conhecida por estabelecer o ImageNet, o conjunto de dados (dataset) que permitiu avanços rápidos na visão computacional na década de 2010.  Li é codiretora do Instituto Stanford para Inteligência Artificial Centrada no Ser Humano (Stanford Institute for Human-Centered Artificial Intelligence) e codiretora do Stanford Vision and Learning Lab.

 


Roblox: Interatividade, Comunidade e Model Alternativos de Criação


David Baszucki, da Roblox, apresenta modelos de criação baseados em comunidade e interatividade

Outro ponto que chamou atenção foi a presença e o posicionamento da Roblox, apresentado por David Baszucki, fundador e CEO da Roblox.
A plataforma se destaca como um modelo resiliente dentro da indústria de jogos.
Enquanto produções AAA continuam avançando no limite do hiper-realismo - um dos maiores objetivos técnicos e artísticos da computação gráfica - Roblox segue um caminho distinto, baseado em

  • Gráficos mais simples
  • Forte base de criação por usuários
  • Economia centrada na comunidade

    O resultado é uma plataforma que mantém crescimento consistente e engajamento amplo.
    Isso não diminui a importância do hiper-realismo, que continua sendo essencial em áreas como cinema, visualização, simulação e experiências de alta fidelidade.
    No entanto, o caso do Roblox evidencia que o sucesso de uma experiência digital também depende de acessibilidade, interatividade e dinâmica de sistema.
    Mais do que uma substituição, o que se observa é uma expansão do campo.
    Design com IA: intenção, contexto e colaboração.

 


Das Ferramentas à Capacitação: Cameron Adams sobre o Canva, a IA
e o Futuro da Criatividade

Cameron Adams, CEO da Canva, explora design com IA baseado em intenção e colaboração

Se por um lado a HumanX apontou para a evolução da IA em direção à simulação, por outro também ficou claro que o campo do design está passando por uma transformação igualmente profunda.

A apresentação de Cameron Adams, co-fundador e CPO da Canva, trouxe um contraponto essencial: a criatividade não pode ser reduzida a um único prompt.

Segundo Adams, o maior erro ao utilizar IA em processos criativos é remover o elemento humano.

Criatividade envolve contexto, experimentação, falha, julgamento e colaboração - aspectos que não podem ser totalmente automatizados.
Nesse sentido, a proposta do Canva não é substituir o designer, mas ampliar sua capacidade.

A plataforma evolui de uma ferramenta de design com IA para uma plataforma de IA com design integrado, onde:

  • Modelos entendem estruturas visuais complexas
  • Aprendem com histórico e identidade de marca
  • Integram-se a fluxos de trabalho reais

Um dos pontos mais relevantes é a ideia de que o design é um processo contínuo, alimentado por dados e refinado ao longo do tempo.


XR e Interfaces: Um Futuro Ainda em Aberto


Autor com Neal Stephenson durante a HumanX 2026

A discussão sobre interfaces imersivas apareceu de forma indireta, mas relevante.
Durante interações com Neal Stephenson - autor do bestseller cyberpunk onde cunhou o termo “metaverso” - surgiu um ponto de tensão importante: mesmo sendo responsável pela popularização do conceito, ele não utilizou o termo em sua apresentação e demonstrou ceticismo em relação ao modelo atual de XR baseado em headsets.

Isso sugere uma desconexão entre o conceito e sua implementação prática atual.
Se a ideia de ambientes imersivos continua válida, talvez os dispositivos ainda não estejam na forma ideal - abrindo espaço para novas abordagens mais integradas ao cotidiano.


Metaverso: De Hype a Infraestrutura Implícita


Sessões destacam o avanço da IA em simulação, agentes e ambientes

A ausência do termo “metaverso” ao longo do evento não indica desaparecimento - mas transformação.
O conceito parece estar sendo absorvido em uma camada mais fundamental, onde seus elementos passam a operar de forma distribuída:

  • Simulação
  • Agentes
  • Ambientes
  • Interação

O metaverso deixa de ser um objetivo explícito e passa a emergir como consequência da convergência entre essas tecnologias.

O que isso significa para profissionais de computação gráfica


Público diverso reflete a convergência entre tecnologia, design e negócios

Talvez o insight mais importante da HumanX para profissionais de computação gráfica seja que o campo não está se contraindo - está se expandindo.

Hoje, existem múltiplas direções possíveis:

  • Simulação e sistemas
  • Ambientes interativos
  • Engines em tempo real
  • Integração com IA
  •  Criação visual e design
  • Ferramentas assistidas por IA
  • Workflows mais rápidos
  • Sistemas que aprendem com dados

Nesse cenário, o profissional mais relevante tende a ser aquele que consegue:

  • Integrar IA ao seu processo criativo
  • Trabalhar com maior eficiência
  • Entender o papel do design dentro de sistemas maiores
  • Equilibrar estética, função e contexto

Mais do que escolher uma área específica, o diferencial passa a ser a capacidade de adaptação.



Da Conferencia à Rua: Um Encontro Inusitado com a Realidade Virtual
 

Unidade da Sandbox VR em San Francisco, destacando a presença de experiências imersivas no ambiente urbano (Fachada)


Unidade da Sandbox VR em San Francisco, destacando a presença de experiências imersivas no ambiente urbano (Interior)

Além das discussões dentro do evento, um detalhe interessante surgiu fora do centro de convenções. A poucos quarteirões do local, em pleno centro de San Francisco, encontrei uma unidade da Sandbox VR, um espaço dedicado a experiências imersivas em realidade virtual, onde grupos participam de jogos colaborativos em ambientes digitais.

Esse tipo de iniciativa, ainda que em escala localizada, sinaliza como tecnologias imersivas continuam explorando caminhos no mundo físico - não necessariamente como plataformas dominantes, mas como experiências compartilhadas que conectam interação, espaço e presença.


Conclusão


Centro de convenções Moscone Center em San Francisco, sede da HumanX 2026


Painel de Fei-Fei Li em um dos principais salões da HumanX 2026 no Moscone Center em San Francisco

A HumanX 2026 não apresentou o futuro da IA como uma ruptura, mas como uma integração progressiva entre diferentes disciplinas.
Para a computação gráfica, XR e design digital, a mensagem é clara: o campo está se ampliando.

Se por um lado cresce a importância de simulação e interatividade, por outro também evoluem as ferramentas que tornam a criação visual mais acessível e inteligente.

Nesse cenário, o diferencial não será apenas dominar uma técnica - mas ser capaz de transitar entre diferentes abordagens e se adaptar às transformações do ecossistema.


Observações em Campo

 

Registro durante o HumanX, refletindo o ambiente e a escala do evento


Um dos primeiros aspectos que chamou atenção foi o nível de organização e produção do evento. 
Desde o aplicativo até a logística geral, a experiência foi altamente estruturada e fluida, com forte atenção à usabilidade. Esse cuidado se estendia ao ambiente físico, com qualidade de som, iluminação e espaços que remetiam mais a eventos corporativos de alto padrão do que a conferências experimentais de tecnologia. 

Outro ponto relevante foi a ausência relativa de temas que, até a alguns anos atrás, dominavam discussões no setor - como metaverso, XR e até mesmo aplicações visuais mais diretas de AI generativa. Em um evento fortemente orientado a tecnologia, o foco parece ter migrado para infraestrutura, serviços e aplicações voltadas ao ambiente corporativo e profissional, com forte presença de soluções B2B e ferramentas direcionadas a usos específicos dentro de funções e áreas de atuação, mais do que ao usuário final.

A dinâmica das apresentações também seguiu um padrão específico: predominância de painéis, com menor presença de formatos individuais expositivos. Além disso, a maior parte dos painéis não incluía sessões de perguntas e respostas no mesmo momento. Quando esse formato existia, geralmente acontecia em sessões separadas com os mesmos participantes, em salas menores, criando um ambiente mais íntimo de interação em contraste com o formato amplo dos ballrooms onde os painéis principais eram apresentados.

Em termos de ritmo, o evento manteve uma programação densa, porém mais sequencial. Diferentemente de eventos como o SXSW, onde múltiplas atividades simultâneas exigem decisões constantes entre diferentes locais, aqui a estrutura favorecia o acompanhamento de uma linha mais contínua de sessões, ainda que com deslocamentos frequentes entre salas.

A distribuição física dos espaços também contribuiu para essa dinâmica. A maior parte das salas de apresentação - incluindo grandes ballrooms - estava concentrada no mesmo andar, com algumas adicionais no segundo piso e outras integradas à área de exposição. Essa organização facilitava a circulação e o acesso às sessões, ao mesmo tempo em que mantinha o fluxo constante de participantes entre conteúdos e espaços.



Entrada do evento HumanX, evidenciando a organização espacial e a escala da conferência.


O espaço físico reforçou ainda mais essa integração. A área de exposição, concentrada em um único ambiente junto a alguns palcos, permitia alternar entre demonstrações e palestras sem grandes rupturas de contexto. Elementos como áreas de arcade - com pinballs, Pac-Man e jukebox - e a presença de vegetação (artificial e natural) funcionavam como contrapeso a um ambiente predominantemente técnico.

 

Área de arcade integrada ao espaço expositivo, funcionando como contraponto lúdico ao ambiente técnico


Nesse mesmo espírito, um dos espaços mais marcantes foi o “Dog Park”, uma área dedicada à interação com cães dentro do ambiente da exposição. Mais do que um elemento curioso, esse espaço evidencia uma tendência relevante: a incorporação de experiências sensoriais e afetivas como equilíbrio dentro de um ambiente altamente técnico. Em um contexto dominado por AI, infraestrutura e soluções corporativas, esse tipo de iniciativa reforça a centralidade do fator humano - não apenas como usuário da tecnologia, mas como presença física, emocional e social dentro do ecossistema.

Espaço “Dog Park” dentro da área de exposição, promovendo interação humana em meio ao ambiente tecnológico


O tom geral do evento foi majoritariamente otimista, com algumas abordagens mais cautelosas e reflexivas. Observou-se um equilíbrio entre aplicações comerciais e discussões mais experimentais, ainda que com predominância clara de soluções voltadas ao mercado corporativo e profissional.

No que diz respeito às ferramentas e plataformas em evidência, houve uma presença recorrente de referências ao ChatGPT em diferentes contextos, muitas vezes acompanhado da recomendação de uso da ferramenta de IA de preferência do usuário em workshops mais experimentais. Ainda assim, o destaque mais perceptível ficou com o Claude, que se que se apresentou como principal referência ao longo do evento. Em seguida, a Perplexity apareceu com frequência relevante, ainda que em menor grau. Também surgiram menções a plataformas como a Lovable, associada a abordagens de ‘vibe coding’, voltadas à criação mais intuitiva e experimental - além de uma presença marcante como patrocinadora do evento.

Presença visual do evento e de seus patrocinadores no ambiente urbano e interno



Os momentos de networking também seguiram uma lógi
ca estruturada, com eventos como happy hours e encontros específicos frequentemente patrocinados por empresas. Em um dos casos mais marcantes, o evento ocorreu no San Francisco City Hall, um ambiente de grande escala e alto nível de produção, com alimentação, apresentações musicais e uma atmosfera que mesclava tecnologia e entretenimento.
Embora esse tipo de espaço esteja disponível para locação, o uso reforça a percepção de proximidade entre o ecossistema tecnológico e ambientes institucionais, ainda que de forma indireta.

Evento de networking realizado no San Francisco City Hall, com ambientação imersiva e produção de alto nível


A presença do evento se estendia além do espaço físico da conferência. Havia forte visibilidade da marca HumanX pela cidade, com sinalização, anúncios, veículos customizados e também presença em canais digitais - incluindo publicidade online - indicando um investimento significativo em alcance, visibilidade e
posicionamento do evento

Por fim, algumas observações fora das sessões reforçam a relação direta entre o ecossistema tecnológico e seu contexto físico. A proximidade fisica entre empresas como Anthropic, Salesforce e BlackRock, assim como Open AI e Uber (todas vizinhas no ambiente urbano), assim como a presença de grandes players como AWS (Amazon Web Services) e Uber no evento, evidencia a convergência entre infraestrutura, capital e desenvolvimento de AI em escala.


Sede da OpenAI (criadora do ChatGPT) em San Francisco a poucos minutos de distância (cerca de 1 a 2 km)


Proximidade física entre empresas como Uber (direita) e OpenAI (esquerda) no ambiente urbano de San Francisco,
evidenciando a concentração geográfica de players centrais no ecossistema de AI.




Edificações próximas à Anthropic, criadora do Claude (cor bege à direita), em diá
logo direto com empresas como Salesforce (torre arredondada à esquerda) e BlackRock (fachada de video à esquerda), ilustrando a proximidade entre infraestrutura técnica, corporativa e institucional.


Edifício da da Anthropic, criadora do Claude (cor bege à esquerda), e da Salesforce (torre arredondada à direita)



Nesse sentido, a HumanX se apresenta não apenas como um evento, mas como uma expressão organizada de um ecossistema em plena consolidação.
A articulação entre empresas, infraestrutura, capital e presença urbana sugere um movimento em que a AI deixa de ser um conjunto de iniciativas isoladas para operar como uma camada integrada da economia e da sociedade. Mais do que antecipar tendências, o evento evidencia como esses sistemas já estão sendo estruturados - de forma coordenada, escalável e cada vez mais presente no cotidiano.

Para profissionais de CG, 3D e XR, esse contexto reforça um deslocamento importante: menos foco na tecnologia como fim em si e mais na sua integração em sistemas maiores, onde visualização, simulação e interação passam a desempenhar papéis cada vez mais estratégicos.