O número de estúdios brasileiros de desenvolvimento de games saltou de 133 em 2014 pra 1.042 em 2024, um crescimento de 683,4% em dez anos, segundo levantamento conjunto de Abragames, ApexBrasil e GA Consulting. A PwC projeta receita de US$ 2,8 bilhões pro setor só em 2026, um número que reposiciona o Brasil como um mercado que a indústria global já não ignora mais.

O que me chama atenção não é só o tamanho do salto, é onde ele está concentrado. São Paulo lidera com folga, com mais de 300 empresas registradas, seguido de perto por polos regionais que cresceram na sombra do eixo Sudeste-Sul, que juntos respondem por 76% dos estúdios do país. A Bahia é um exemplo bom disso, com a Associação de Desenvolvedores de Jogos do Estado, a BIND, relatando cerca de R$ 3,6 milhões movimentados por ano num polo que ainda enfrenta dificuldade real de financiamento e formação de mão de obra especializada.

É esse contraste que torna o dado mais interessante do que parece à primeira vista. Empresas como Sony, Tencent, Ubisoft, Riot Games, Microsoft, Blizzard e Google já colocaram o olho no mercado brasileiro, seja investindo em estúdios locais, seja abrindo escritórios de suporte. Ao mesmo tempo, quem desenvolve fora do eixo principal ainda esbarra em desafios de capital que grandes centros não enfrentam da mesma forma, o que cria uma indústria crescendo em velocidades muito diferentes dependendo de onde você está.

Esse crescimento acontece justamente no momento em que estúdios internacionais atravessam a pior onda de demissões dos últimos anos, o que reforça um padrão que já observamos antes, o Brasil virando destino de produção AAA terceirizada enquanto grandes publishers cortam operação própria lá fora, como já mostramos no artigo sobre o Brasil virando fábrica de jogos AAA em meio a demissões.

Não tenho certeza se esse ritmo de crescimento se sustenta se o financiamento regional não acompanhar, mas fica difícil negar que o Brasil deixou de ser nota de rodapé no mapa global de desenvolvimento de jogos, e agora a pergunta real é quem vai conseguir converter esse crescimento em estabilidade de longo prazo.