O caminho entre um paper de IA e a ferramenta de um animador costuma ser longo, e o Kimodo acabou de encurtar esse trajeto. O modelo, desenvolvido pelo laboratório de inteligência espacial da NVIDIA Research e divulgado em março com código aberto no GitHub, foi integrado ao Animcraft 6.0, software da Basefount lançado em meados de setembro.

O Kimodo é um modelo de difusão cinemática. Ele foi treinado com 700 horas de captura de movimento óptica e gera movimento humano a partir de texto, com a opção de somar restrições, como poses completas em quadros específicos, posição de mãos e pés, pontos de passagem no chão e trajetórias. Na demonstração da NVIDIA, o mesmo modelo anima tanto personagem digital quanto o robô humanoide G1, da Unitree.

Kimodo nvidia
Kimodo nvidia

O Animcraft, para quem não conhece, é uma biblioteca de animação que puxa movimentos de Maya, 3ds Max, Blender, FBX, BVH e glTF, e faz retargeting entre esses programas, Unreal Engine e Unity. A versão 6.0 soma duas coisas. Uma é o texto para animação baseado no Kimodo. A outra é um modelo de rigging treinado pela própria Basefount, que calcula pesos de skinning automaticamente em segundos, a parte chata de dizer quanto cada vértice da malha acompanha cada osso.

A Digital Production levantou uma ressalva justa. A Basefount não informou qual variante do Kimodo usa, quais restrições o artista consegue controlar nem se tudo roda localmente. E um movimento gerado só vira produção depois de sobreviver à escala, à pose de descanso, à taxa de quadros e ao contato com o chão do rig final.

Fico pensando no lugar em que a IA está entrando. O discurso público gira em torno de gerar a animação inteira com uma frase, mas a Basefount colocou o modelo dentro de um software cujo trabalho é justamente consertar e reaproveitar movimento. Parece um reconhecimento tácito de que o clipe gerado é matéria-prima. É a mesma direção de quando o Maya passou a deixar o estúdio treinar o próprio modelo de animação, com a IA tratada como etapa de pipeline.

A caminhada, a virada e o gesto de fundo de cena talvez sejam os primeiros a sair da mão do animador. A atuação que faz o público acreditar no personagem continua esperando alguém que saiba o que ela deveria sentir.