FMX, uma das principais conferências internacionais sobre efeitos visuais, animação, games e tecnologia para entretenimento, aconteceu nesta semana em Stuttgart, na Alemanha. O evento reúne profissionais de grandes estúdios, como Netflix e Framestore, para discutir bastidores reais de produção, novas ferramentas, mudanças nos pipelines e os caminhos da indústria criativa. Com três décadas de história, a edição deste ano trouxe muitos debates relevantes, mas uma comparação específica chamou atenção e ficou martelando depois do evento.

A Netflix apresentou um método chamado Sparse Set Restyling, onde cenas são filmadas em sets minimalistas e a IA completa ambientes, iluminação e detalhes em pós-produção. Ao explicar a abordagem, a equipe recorreu a uma analogia que já está circulando na indústria: disse que o momento atual com IA é o nosso Photoshop, uma referência ao susto que a área de imagem levou nos anos 90 quando a ferramenta foi lançada e pareceu ameaçar tudo.

A lógica faz sentido, o Photoshop não extinguiu a fotografia, democratizou quem podia criar e para quê. Se a IA seguir esse caminho, o VFX se transforma sem desaparecer. Só que tem uma diferença que me incomoda. O Photoshop ainda dependia de um humano para cada escolha estética, cada recorte, cada decisão de cor. A IA generativa do SSR não edita o que foi filmado, ela gera o que não existia e essa diferença de escala não me parece pequena.

E é aí que a analogia começa a parecer mais um mecanismo de conforto do que uma descrição precisa. O Photoshop não matou a fotografia, isso é verdade. Mas matou os laboratórios analógicos e toda uma cadeia de trabalho especializado que existia antes. O campo sobreviveu, mas funções específicas não. Pode ser que as duas coisas sejam verdadeiras ao mesmo tempo, o VFX não vai morrer, e muitos artistas vão perder espaço dentro dele, algo que a compra da InterPositive pela Netflix já antecipava.

Não sei se a comparação com o Photoshop está errada, no entanto, acho que é mais provável que ela esteja certa e incompleta ao mesmo tempo, e que a segunda parte seja a que importa mais agora.