A pedagogia do Poeira Estúdio trata a criança como autora, não como espectadora de um processo que os adultos conduzem sozinhos. Cada turma passa por todas as etapas de uma produção real, criação de personagem, storyboard, animação quadro a quadro e som, num ritmo adaptado para a idade, mas sem pular nenhuma parte do ofício. O estúdio já soma anos de oficinas de férias na cidade, e parte da graça do método está em deixar a criança errar dentro do processo, perceber que um plano não funcionou e refilmar, exatamente como acontece numa produção adulta.

Em 29 de novembro, o estúdio realiza uma nova edição da mostra com os filmes produzidos nas oficinas, e pela primeira vez as sessões serão abertas ao público, não só para as famílias das crianças envolvidas. É um gesto pequeno que aponta para um problema maior do setor, formação em animação no Brasil ainda depende demais de iniciativa isolada e pouco de política pública contínua.

Isso se conecta com um debate que o mercado de games trava há anos, sobre quando vale a pena investir em curso de design de jogos em vez de aprender sozinho, e a resposta passa quase sempre pela mesma constatação, quanto mais cedo alguém entende o processo completo de criação, maior a chance de sustentar uma carreira nele.

O Poeira não promete formar animador profissional em duas semanas de oficina. Promete algo mais simples e mais raro, mostrar pra uma criança de BH que o desenho que ela faz pode virar filme, e que esse caminho existe fora do eixo Rio-São Paulo, onde a indústria de animação brasileira ainda se concentra.