Tem algo de estranho em ver a Pixar estrear Toy Story 5 falando sobre brinquedos ameaçados por um tablet bem no momento em que o estúdio inteiro está vivendo essa mesma ameaça em outra escala. A premiere oficial aconteceu em Londres no dia 28 de maio e o filme chega aos cinemas em 19 de junho com Lilypad, um tablet com personalidade própria, como a vilã que entra na vida dos brinquedos da Bonnie.
A premissa do filme é simples e quase autobiográfica. Os brinquedos se sentem ultrapassados quando a Bonnie ganha um dispositivo que oferece tudo que eles oferecem, com mais variedade e menos espaço. É exatamente a conversa que a Pixar e o resto da animação tradicional vêm tendo internamente desde que ferramentas de IA generativa começaram a oferecer cenas inteiras produzidas em minutos, com resultados que estão melhorando rápido demais para a indústria fingir que não está vendo.
Não dá para saber até que ponto essa leitura é intencional, mas é difícil acreditar que ninguém na sala de roteiro tenha percebido. A Pixar vem perdendo terreno comercial desde Lightyear, atravessou anos de reestruturação e demitiu equipes inteiras enquanto a Disney repensa o que vale a pena financiar. Talvez o filme funcione mais como autorretrato do que como mensagem para crianças, porque toda essa angústia do brinquedo cabe perfeitamente no estúdio que o desenhou. Em paralelo, vale lembrar que a discussão sobre IA na animação não é simétrica e atinge profissionais e estúdios em camadas diferentes.
O que torna o paralelo desconfortável é o final esperado. Em todo Toy Story, os brinquedos descobrem que o lugar deles é com a criança e que nada substitui o que eles representam. Se o filme repetir essa fórmula, ele vai estar dizendo justamente o que muita gente da animação clássica quer acreditar sobre o próprio futuro. E não está claro se isso é uma conclusão honesta ou uma forma de seguir esperançoso enquanto o mercado decide outra coisa.
Fica a pergunta sobre o que significa um estúdio fazer um filme tão claramente sobre o medo que ele próprio sente. Talvez seja autoconsolo, talvez seja honestidade rara, ou talvez seja só a vantagem de quem ainda sabe fazer melhor que qualquer ferramenta nova, e está apostando que isso continua valendo alguma coisa.