Faz quase um ano que Yann LeCun saiu da Meta depois de doze anos no comando da pesquisa de IA da empresa, e a aposta que ele fez com esse tempo livre diz muito sobre uma fratura que atravessa toda a indústria de inteligência artificial. A AMI Labs, startup parisiense que ele fundou, já levantou 1,03 bilhão de dólares numa valuation de 3,5 bilhões, e o discurso por trás do dinheiro é direto, LLM não é o caminho pra inteligência de verdade.
O argumento de LeCun sempre foi o mesmo, modelos de linguagem aprendem a prever a próxima palavra, não a entender como o mundo funciona. Modelos de mundo como o Genie 3, do Google DeepMind, seguem uma lógica parecida, aprender física, espaço e consequência a partir de vídeo e interação, não de texto. A diferença é que a AMI Labs quer construir essa tecnologia de forma aberta, e apostar bilhão de dólar nisso é uma declaração de que esse não é mais território de pesquisa acadêmica isolada.
As primeiras aplicações anunciadas pela AMI Labs miram saúde, automação industrial e robótica, não games nem cinema. Isso pode parecer distante do que interessa pra quem trabalha com produção visual, mas não é. Modelo de mundo que entende física e consequência é exatamente a base técnica por trás de todo o movimento que já produziu Genie, GameNGen e a onda de ferramentas de geração de ambiente jogável que vem tomando espaço em pipeline de estúdio.
Não tenho certeza se a aposta de LeCun contra os LLMs vai se confirmar certa, o mercado inteiro de IA generativa hoje é construído em cima de modelo de linguagem, e virar essa maré exigiria mais do que dinheiro. Mas se ele estiver certo, o efeito colateral pode ser justamente esse, tecnologia de saúde e robótica compartilhando a mesma base matemática que um dia vai rodar o próximo jogo gerado por IA em tempo real.