Tem uma leitura fácil sobre a indústria de games no Brasil que diz que ela é pequena e depende de fora. Os números da Abragames contam uma história mais estranha. O setor movimentou cerca de 12,7 bilhões de reais em 2025 e tem mais de mil desenvolvedoras ativas, mas 55% da receita dos estúdios já vem de clientes e mercados fora do país.
Esse desequilíbrio não é acidente, é modelo. A maior parte dos estúdios brasileiros é micro ou pequena, muitos formalizados como MEI, e aprendeu cedo que o mercado interno não paga as contas sozinho. Então o jogo passou a ser exportar, seja vendendo o próprio título lá fora, seja prestando serviço de produção para publishers de outros países. O talento fica aqui, o dinheiro vem de fora.
Funciona, até certo ponto. Depender de receita externa protege contra a economia doméstica, mas também deixa o setor exposto a decisões que ninguém aqui controla, como corte de orçamento de um publisher americano ou uma virada de câmbio. É força e fragilidade ao mesmo tempo.
A Abragames tem a meta declarada de colocar o Brasil no top 5 mundial de desenvolvimento, e aponta três coisas que precisam acontecer juntas: financiamento público que não pare a cada troca de governo, capital estrangeiro entrando de forma estruturada e, principalmente, capital privado brasileiro se interessando pelo próprio setor. Esse último ponto é o mais difícil, porque o investidor nacional ainda enxerga game como aposta, não como indústria.
Já falei aqui sobre como a indústria de games no Brasil cresceu mais de 600% em uma década, e o dado de exportação mostra o outro lado disso. O crescimento veio, mas ancorado em fora.
Fico com uma pergunta que o relatório não responde. Uma indústria criativa que produz aqui e é paga lá é uma indústria brasileira de verdade, ou é uma prestadora de serviço que por acaso fica no Brasil? A resposta muda o que a gente deveria estar cobrando de política pública.