The Adventures of Elliot: The Millennium Tales, o novo action-RPG do Team Asano dentro da Square Enix, chegou recentemente às lojas para Nintendo Switch 2, PS5, Xbox Series X|S e PC. A primeira reação da comunidade, com naturalidade quase suspeita, foi comparar o jogo com a Nintendo. Mais especificamente, com a série Zelda.

A leitura inicial é fácil. As masmorras pegam o desenho de A Link to the Past. A mecânica de troca de mundos cita A Link Between Worlds. Os santuários espalhados pelo cenário lembram Breath of the Wild. Cada peça do jogo tem um endereço claro na história da Nintendo. Mas talvez seja justamente aí que a leitura precisa começar de novo.

 

Combate contra o Greatsword Guardian em uma das masmorras, com a estética HD-2D que mistura personagens 2D e cenário 3D

 

Não tenho certeza de que estamos falando de uma cópia. Em algum momento dos últimos cinco anos, o vocabulário do Zelda parou de pertencer ao Zelda. Virou referência comum, da mesma forma que dungeon crawler virou referência comum nos anos noventa, e mundo aberto virou referência comum nos dois mil. O que era marca de um estúdio virou gramática que outros estúdios podem manipular.

O que me chama atenção em Adventures of Elliot é o que ele faz com isso. A Square Enix vinha refinando o HD-2D desde o primeiro Octopath, misturando personagens em 2D com cenários 3D, em uma estética que ninguém mais consegue replicar com a mesma consistência. Cruzar essa linguagem visual com a gramática do action-adventure de exploração é uma decisão estranha quando você olha de longe. De perto, é talvez a única forma de a Square Enix continuar sendo Square Enix sem ficar refém de Final Fantasy.

Não sei se o jogo vai funcionar como produto a longo prazo. Lançamento ainda é cedo demais para diagnóstico. Mas a pergunta que ele levanta vale por si só. Quando uma editora histórica de JRPG decide construir um jogo que parece de outra editora, a primeira coisa que muda é a definição do gênero que ela representa. A segunda coisa, que vai demorar mais para ficar clara, é a definição de gênero como um todo.

Adventures of Elliot pode envelhecer mal. Pode acabar lembrado como tentativa fora do lugar. Mas se sustentar o que o trailer e as impressões iniciais prometem, fica difícil olhar para JRPG, action-adventure e HD-2D como caixas separadas. E isso, mesmo que a Square Enix não execute tudo direito, já é uma mudança de patamar na conversa.