O VFX de Backrooms, primeiro longa de Kane Parsons para a A24, tem uma origem que eu não consigo parar de revirar. Segundo o supervisor de efeitos visuais Edward Douglas, em entrevista à VFX Voice publicada este mês, houve momentos em que a equipe trabalhou literalmente em cima do arquivo do Blender que Parsons construiu aos 16 anos, quando os corredores amarelos dele viraram fenômeno no YouTube. O arquivo foi refinado, levado à qualidade de cinema e só então entrou no pipeline de produção.
Parsons chegou do mundo digital e, mesmo assim, pediu o máximo de cenário físico possível. A produção ergueu cerca de 2.800 metros quadrados de sets em quatro estúdios, enquanto o projeto digital dele somava algo perto de 9.300 metros quadrados. O arquivo do Blender funcionou como planta baixa, e o CG ficou reservado para o que não cabia no galpão.
O efeito mais conhecido do filme, o momento em que os personagens atravessam a parede para entrar nos Backrooms, é quase todo físico. Os atores passavam por aberturas reais do cenário, e a Mr. Wolf VFX devolvia as paredes em volta deles com rotomation e rotoscopia manual. Douglas conta que o truque que vendeu a ilusão foram as sombras em CG projetadas nas paredes a partir da animação.
Tem outra cena que resume bem a lógica da produção. O Clark pirata, uma cópia de 2,60 metros do personagem de Chiwetel Ejiofor, foi vivido em cena pelo ator Robert Bobroczkyi com ajuda de um titereiro, e só o rosto virou CG, feito pela Zoic Studios a partir de um escaneamento do próprio Ejiofor.
A história ainda chegou à Blender Conference desta semana, em Amsterdã, com a palestra de Calvin Romeyn, supervisor associado de VFX pela Roxel Creative, sobre o caminho do YouTube até Hollywood. Faz sentido que ela esteja lá. O Blender Studio acabou de mostrar o teaser de Overgrown, seu primeiro longa, e agora um diretor formado pelo programa gratuito colocou um terror da A24 entre os maiores sucessos de bilheteria do ano.
Fico pensando no que isso diz sobre portfólio. A gente costuma tratar o projeto pessoal como vitrine para arrumar emprego, algo que se mostra e depois se abandona. No caso de Parsons, a vitrine virou a própria fundação do filme, com as mesmas medidas de parede e o mesmo carpete desenhado anos antes, agora pisado por atores de verdade.