Tem uma ironia boa em ver um estúdio que animou trechos de séries como Hazbin Hotel e Agent Elvis ainda precisar explicar, em 2026, que animação também é para adulto. É esse o tema do painel que o Combo Studio leva nesta segunda-feira, 5 de outubro, à 28ª edição do RioMarket, o evento de negócios do Festival do Rio, no Armazém da Utopia, no Cais do Porto. Marcelo Pereira, fundador e CEO, divide a mesa com Zé Brandão, da Copa Studio, sob mediação de Aline Belli, presidente da Santacine e vice-presidente da Abranima.
O Combo nasceu em 2015 no Rio, fundado por Pereira e Vitor Campos, e trabalha nos dois lados do mercado. De um lado há a franquia Any Malu, que passou de 7 milhões de seguidores e virou a série O Mundo Sem Filtro de Any Malu, coproduzida com a Warner Bros. Discovery, e há Super Drags, primeira animação original brasileira da Netflix. Do outro, o estúdio presta serviço para produções estrangeiras, de Rick and Morty a Hit-Monkey, e assinou um segmento da abertura dos Jogos de Tóquio que ganhou mais de 15 prêmios internacionais.
Os números que o estúdio leva ao painel explicam por que o assunto saiu da prateleira. A fatia da demanda do público por animação adulta subiu de 1,9% em 2020 para 3,49% em fevereiro de 2025, e no Brasil 26% dos usuários de streaming assistem animação, proporção que chega a 31% entre quem tem de 16 a 34 anos. Pereira resume o argumento dizendo que a animação adulta abre espaço para comédia, drama, ação, fantasia e ficção científica, temas que a infantil não alcança.
Não sei se o mercado brasileiro já entendeu isso por inteiro. A animação adulta brasileira mais vista lá fora ainda é, em boa parte, feita por encomenda, com o crédito indo para a marca de quem contratou. O Combo tenta equilibrar essa conta com propriedade intelectual própria e com formação, já que mantém cursos online de animação que passaram de 6 mil alunos.
A própria Copa Studio, parceira de mesa, viveu esse dilema e contamos aqui como ela equilibra projeto autoral e serviço para sobreviver. Os dois estúdios cariocas chegam ao painel com a mesma experiência de quem anima para fora e tenta criar para dentro.
Quando um estúdio do Rio consegue colocar no currículo personagens que viraram fenômeno nas redes do mundo todo, o público brasileiro dessas séries raramente sabe que parte daquilo foi desenhada a poucos quilômetros de casa.