Uma empresa cujo negócio é esconder código agora precisa que outras revelem quem é uma pessoa. A Denuvo, sistema antipirataria que editoras licenciam para proteger jogos de PC e que pertence à holandesa Irdeto, pediu ao tribunal federal do Distrito Norte da Califórnia autorização para intimar Discord, Valve e Reddit. O objetivo é obter todas as informações que as três empresas guardam sobre o voices38, apelido do cracker que a Denuvo processou em setembro, com base na lei americana de direitos autorais digitais, a DMCA. Um juiz ainda vai decidir se as intimações seguem adiante.

Segundo a ação, revelada pelo TorrentFreak e repercutida pela Game Developer em 8 de outubro, o voices38 teria contornado a proteção de 26 jogos. A lista inclui jogos grandes dos últimos dois anos, como Resident Evil Requiem, Stellar Blade, 007 First Light e Doom: The Dark Ages, alguns quebrados no próprio dia da estreia. Os advogados da Denuvo admitem que nem sabem se o apelido pertence a uma pessoa ou a um grupo. No Reddit, o voices38 respondeu com uma frase curta dizendo que está tudo bem e que nada vai mudar.

Acho que esse processo expõe a fragilidade do modelo. A Denuvo cobra caro justamente pela promessa de segurar a pirataria nas primeiras semanas de vendas, que são as que mais rendem, e segundo a reportagem não devolve dinheiro quando a proteção cai. Quando alguém consegue quebrar o sistema de forma estrutural e repetida, cada editora que pagou pela licença passa a fazer uma conta diferente na hora de renovar. Jogadores, por outro lado, reclamam há anos que a ferramenta pesa no desempenho, e jogos como o 007 First Light, lançado em 27 de maio, chegaram ao PC com a proteção e foram quebrados mesmo assim.

Tem também um desconforto que vai além da pirataria. Discord, Steam e Reddit são lugares onde milhões de pessoas conversam sob apelido, e um pedido amplo de dados abre precedente para outros casos em que uma empresa quer saber quem está criticando, modificando ou desmontando o produto dela. Os tribunais costumam pesar isso antes de autorizar.

Ainda não sei o que seria uma vitória para a Denuvo aqui. Descobrir um nome resolve o processo, mas não devolve a confiança de quem comprou a promessa de que a proteção aguentaria, e me pergunto se as editoras vão esperar o fim dessa briga para decidir se continuam pagando.