Uma mudança de contrato de uma equipe pequena não parece notícia, mas às vezes é por ela que um setor inteiro muda de regra. Em 30 de setembro, os trabalhadores de efeitos visuais da Apple Studios fecharam o primeiro acordo coletivo com o IATSE, o sindicato que representa técnicos e artistas da indústria audiovisual nos Estados Unidos e no Canadá, e que já negociava por quase todas as funções de um set, menos pelo VFX.
A unidade é pequena. Reúne supervisores e coordenadores de produção de VFX, artistas, operadores de câmera de referência, equipe de set e data wranglers que trabalham em seis produções da Apple, como Surface e Government Cheese. O grupo votou por unanimidade pela sindicalização em agosto de 2024, e foram mais de dois anos até o contrato sair.
O que eles conseguiram é o pacote que outras funções de cinema e TV têm há décadas. Há salário mínimo por título, com reajuste anual atrelado ao acordo geral do IATSE com os produtores, garantia mínima de horas, pagamento de todas as horas trabalhadas e hora extra em feriados e no sexto e sétimo dia seguidos de trabalho. Entram também o plano de saúde e a previdência da indústria pagos pelo empregador, retroativos a 1º de janeiro de 2026, além das proteções sobre inteligência artificial do acordo geral e de adicional por condição perigosa no set.
Fico pensando em por que algo tão básico demorou tanto. O VFX virou a espinha de qualquer produção grande, mas cresceu organizado em fornecedores terceirizados que competem por preço, longe da mesa onde as regras do set eram negociadas. As primeiras unidades só de efeitos visuais apareceram em 2023, na Marvel Studios em setembro e na Walt Disney Pictures em outubro, e depois vieram as equipes dos filmes de Avatar. A Apple é mais uma peça nessa sequência, e talvez a mais simbólica por ser uma empresa de tecnologia.
No mundo dos games o movimento é parecido, e a King, de Candy Crush, assinou acordo coletivo às vésperas de uma greve no fim de setembro. Os dois casos têm em comum gente criativa descobrindo que a relação com quem contrata também é parte do trabalho.
Um detalhe ainda me incomoda. Esses contratos cobrem a equipe interna dos estúdios, enquanto a maior parte dos planos de efeitos de uma série é feita por casas terceirizadas, muitas delas fora dos Estados Unidos, onde nada disso chega.