Existe uma ironia difícil de ignorar na decisão que a Sony confirmou pra 2028, encerrar a produção de discos físicos pra novos jogos de PlayStation. O que vejo aqui não é só uma mudança de formato, é o fechamento de um capítulo que a própria Sony ajudou a definir.

Em 2013, no lançamento do PS4, a Sony rodou uma campanha de marketing inteira zombando da Microsoft por tentar restringir a revenda de jogos usados no Xbox One. O vídeo viralizou, a Microsoft recuou, e a Sony construiu boa parte da própria identidade de marca em cima da liberdade de comprar, vender e trocar disco físico sem restrição nenhuma. Doze anos depois, é a Sony que decide fechar essa porta, e a reportagem da CNBC de 22 de julho chama isso de decisão irônica com razão de sobra.

O número que mais me chama atenção é o tamanho do mercado que fica na berlinda. Segundo dados da Dataintelo citados pela CNBC, a revenda de jogos usados vale 7,2 bilhões de dólares, com projeção de chegar a 13,8 bilhões até 2034. Michael Pachter, da Wedbush Securities, resume bem o que está em jogo, a mudança economiza dinheiro pra Sony, mas quem paga o preço em falta de opção é o consumidor.

Pra quem trabalha com varejo físico de games, o recado é ainda mais direto. Sem disco novo saindo de fábrica, lojas que vivem de revenda e troca perdem o fluxo constante de estoque fresco que sustenta o modelo inteiro. A Sony já havia confirmado o fim da produção de discos em anúncio anterior, mas só agora fica claro o tamanho do efeito colateral que ninguém tinha calculado direito.

Vale acompanhar como Microsoft e Nintendo reagem nos próximos meses, porque se uma das três decide manter disco físico como diferencial, o mercado de revenda pode sobreviver, só que menor e mais concentrado. O que muda a partir daqui é que o disco físico deixou de ser padrão e virou exceção estratégica.