Para quem não lembra, Reigns saiu em 2016 e colocou o jogador no trono de um reino medieval, tomando decisões com o mesmo gesto de deslizar cartas para os lados que os aplicativos de namoro tinham acabado de popularizar. Cada escolha mexia em quatro barras, igreja, povo, exército e tesouro, e deixar qualquer uma delas zerar ou encher demais acabava com o reinado. A fórmula virou série, ganhou versões licenciadas de Game of Thrones e de The Witcher, e o estúdio ainda fez Card Shark e The Crush House, num total de 11 jogos publicados em 13 anos de estúdio.
O comunicado dos Alliot é curto e cansado. Eles chamam a trajetória de uma aventura incrível e dizem que precisam fazer uma pausa e refletir sobre tudo o que aconteceu antes de voltar. O número de demitidos não foi divulgado, mas o contexto ajuda a entender o tamanho da equipe que sobrou, já que a própria Devolver cortou 40% dos funcionários da Nerial em 2024.
Hibernação parece uma palavra escolhida com cuidado. Fechar um estúdio é definitivo, e quem fecha costuma perder marca, contatos e o pouco de prestígio acumulado. Hibernar permite que a empresa continue existindo no papel, com o nome de quem fez Reigns, sem ninguém na folha de pagamento. Não sei se isso é estratégia, esperança ou só um jeito menos doloroso de dar a notícia, e talvez nem os fundadores saibam ainda.
O caso lembra o da Night School, estúdio de Oxenfree que a Netflix fechou. Os dois eram estúdios pequenos, autorais, comprados por uma empresa maior num momento de expansão, e os dois descobriram que pertencer a alguém não protege contra um mercado que ficou mais caro e mais concorrido para jogo narrativo de nicho.
A Devolver, por sua vez, segue com agenda cheia e leva seis jogos inéditos ao estande da Brasil Game Show na semana que vem, no mesmo mês em que um dos estúdios que ajudaram a construir sua identidade apaga as luzes.