O Nuke é a ferramenta de composição que praticamente toda produção de VFX do mundo usa há mais de duas décadas, e por muito tempo pareceu imune às ondas de mudança que atravessaram o resto do pipeline. Por isso chama atenção ver a Foundry lançar o Nuke 17.1 em beta aberto trazendo suporte a Hydra 2.0 e relighting de captura por Gaussian Splatting, duas tecnologias que até pouco tempo pareciam pertencer a um mundo de produção completamente separado do compositor.
Hydra 2.0 é a versão atual do framework de renderização que sustenta o USD, o formato que a Pixar abriu para padronizar como cenas 3D trafegam entre ferramentas diferentes sem se perder na tradução. Ao adotar essa versão no visualizador 3D, o Nuke passa a permitir a pré-visualização individual de AOVs, como profundidade e posição, direto na composição. Não parece muito, mas é o tipo de detalhe que economiza horas de ida e volta entre departamentos ao longo de uma produção real. Segundo a própria Foundry, o suporte a Hydra 2.0 também abre caminho para render delegates de terceiros no futuro, o que amplia ainda mais quem pode plugar sua tecnologia direto dentro do Nuke.
Esse movimento de padronização não é exclusivo do compositor da Foundry. O Substance 3D Designer também mudou como materiais funcionam no pipeline ao adotar o OpenPBR, e o padrão parece o mesmo, ferramentas historicamente fechadas cedendo espaço para formatos abertos que atravessam estúdios inteiros.
A parte que mais me chama atenção, porém, é o relighting de Gaussian Splatting. Splatting é uma técnica de captura relativamente recente, que reconstrói cenas reais a partir de nuvens de pontos com aparência quase fotográfica, e via de regra ainda é tratada como território de pesquisa. Ver essa tecnologia entrar direto num compositor tão estabelecido sugere que a distância entre captura e pós-produção está encolhendo mais rápido do que a indústria costuma admitir.
Ainda não sei dizer se isso significa um pipeline mais rápido ou uma pressão nova sobre quem hoje se especializa só em composição tradicional. Talvez as duas coisas ao mesmo tempo. A Foundry ainda não cravou uma data para a versão estável, e olhando o histórico de lançamentos recentes, o mais provável é que leve de três a seis meses. Mas o sinal já está dado, o compositor mais conservador da indústria está absorvendo tecnologia de ponta rápido demais para ser ignorado.