Gosto de histórias de estúdio que começam com um plano dando errado. Em entrevista ao GameSpot, resumida pela 80 Level, Phillipe Morin, cofundador da Red Barrels ao lado de David Chateauneuf e Hugo Dallaire, relembrou como Outlast chegou ao mundo. O trio de Montreal achou que fechar com uma publisher levaria três ou quatro meses. Foram cerca de 18 meses de apresentações, e nenhuma empresa assinou.
A saída foi lançar sozinho, e Morin admite que a equipe aprendeu publicação, marketing e vendas no meio do caminho. Thomas Grip, cofundador da Frictional Games, de Amnesia, ajudou com conselhos sobre a Steam numa época em que autopublicar um terror em primeira pessoa ainda parecia arriscado. Outlast saiu em 2013, com um jornalista armado só de uma câmera de visão noturna dentro de um hospício, e virou referência do gênero.
Os bastidores contados por Morin têm um tom quase de anedota. O terror veio primeiro, e a violência veio como consequência dessa escolha, sem nenhuma tentativa de seguir moda, a ponto de o roteirista repetir que nunca havia sangue demais. Num dos testes com jogadores, um participante saiu do estúdio chorando depois de umas duas horas e nunca mais voltou. Anos depois, The Outlast Trials levou cerca de seis anos até entrar em acesso antecipado, em 2023, com a equipe já em 45 pessoas.
Fico pensando no que esses 18 meses de recusa significaram. Na hora, devem ter parecido fracasso, e talvez tenham sido a melhor coisa que aconteceu ao estúdio, porque a Red Barrels saiu dali sabendo vender o próprio jogo e sem ninguém de fora decidindo o tamanho do susto. A conversa lembra a de outro nome do terror, quando o criador de Dead Space disse que boa ideia economiza mais que IA, e nos dois casos o que sustentou o projeto foi uma visão bem clara do que dá medo.
Hoje, com publishers ainda mais cautelosas e mais estúdios pequenos tentando a Steam por conta própria, a história de Outlast virou quase um manual informal. Eu me pergunto quantos jogos ficaram pelo caminho porque o estúdio não teve fôlego para aguentar um ano e meio de não sem desistir de lançar?