Durante anos, a Double Fine foi vendida como o estúdio sem cara de empresa, criativo, informal e com pouca hierarquia. Foi justamente isso que ajudou a derrubar o sindicato que parte da equipe tentou montar neste ano. Uma reportagem da Kotaku, assinada por Rebekah Valentine e publicada em 9 de outubro, reconstrói como a tentativa, feita com o sindicato americano de trabalhadores de comunicação, o CWA, durou cerca de duas semanas em maio e terminou com o pedido retirado e colegas que deixaram de se falar.
O problema começou na lista de quem podia votar. Pela lei dos Estados Unidos, quem tem poder de contratar e demitir não pode entrar no sindicato, e na Double Fine muita gente já tinha passado por cargo de gestão em algum momento, sem que isso estivesse bem documentado. A lista final estava sendo negociada entre a Microsoft, então dona do estúdio, e o CWA, e nunca foi fechada. Enquanto isso, a orientação para gestores era evitar conversas individuais sobre o assunto, e alguns funcionários relataram que colegas pararam de falar com eles sobre qualquer coisa, inclusive trabalho. A tensão lembrou a muitos a chamada Bad Meeting, uma reunião de 2019 sobre crunch que virou cena de documentário.
Em entrevista à Kotaku, Tim Schafer disse que é a favor de sindicatos em geral, que leu na reunião com a equipe um texto que misturava palavras dele e da Microsoft e que se arrepende de como conduziu o encontro de 2019. A carta original tinha cerca de 30 assinaturas, e Schafer contou que mais ou menos metade dessas pessoas foi demitida depois, mas negou ter mirado nelas, citando antiguidade, presença no escritório e projetos que podiam ser fechados como critérios. Os cortes vieram depois que a Double Fine se separou do Xbox, quando o estúdio demitiu 23 pessoas três semanas após deixar a Xbox.
Leio isso com uma sensação estranha. A cultura sem hierarquia que tornava a Double Fine um lugar desejado deixou o estúdio despreparado para a estrutura que um sindicato exige, com lista de cargos, regras de contato e alguém formalmente do lado da gestão. Talvez seja o retrato de uma geração de estúdios criativos que nunca precisou se enxergar como empresa até o momento em que a empresa apareceu.
Hoje independente, a Double Fine é dona dos direitos de publicação de Psychonauts 2, Kiln e Keeper, e Schafer diz que a nova estrutura, incluindo participação societária, ainda está em transição. O CWA não explicou por que retirou o pedido.