Uma cidade americana vazia, com janelas quebradas e letreiros digitais piscando para ninguém, vista de cima por um pequeno avião. Quem assistiu a The Dog Stars, o thriller pós-apocalíptico de Ridley Scott que estreou em agosto nos Estados Unidos e no Reino Unido, provavelmente não desconfiou que aquela Denver foi filmada na Itália. A BlueBolt, casa de efeitos visuais de Londres, publicou nesta semana o breakdown dos 92 planos que fez para o filme, e o vídeo mostra como a cidade foi montada quase inteira em 3D.

The Dog Stars
The Dog Stars

O filme adapta o romance de Peter Heller e acompanha Hig, piloto vivido por Jacob Elordi, que sobrevive com o cachorro numa região rural do Colorado depois de uma pandemia de gripe que matou quase todo mundo. Para os sobrevoos sobre Denver, a BlueBolt descartou a pintura digital de cenário, a matte painting, e construiu o ambiente em 3D, o que liberou a equipe para mudar ângulo de câmera e fazer planos aéreos sem refazer tudo a cada ideia nova do diretor. Foram mais de 180 assets, entre prédios, carros destruídos e mobiliário urbano, e cerca de 1.600 variações de edifícios nos planos mais abertos.

 

O abandono está nos detalhes. Manchas de chuva, poeira, vidros estourados e telas digitais com defeito contam quanto tempo passou, enquanto árvores balançando, persianas soltas e lixo preso nos fios de telefone impedem que a cidade pareça uma maquete parada. Nas cenas do Cessna, a equipe estendeu as imagens aéreas feitas de helicóptero e juntou as tomadas da cabine, gravadas em tela azul, com o exterior do avião digital, além de uma cabine em CG para controlar a luz.

Penso nisso como uma inversão curiosa. O filme é sobre um mundo onde as pessoas sumiram, e a parte mais trabalhosa da produção foi justamente fabricar tudo o que essas pessoas deixaram para trás. Escolher 3D em vez de matte painting também conversa com o que a Framestore fez ao montar um campo de batalha 100% em CG para Lioness, porque cenário digital completo virou a saída de quem precisa de liberdade de câmera.

São 92 planos num longa de Ridley Scott, um número modesto para o padrão de Hollywood. Mesmo assim, o breakdown está no canal da BlueBolt no YouTube e funciona como aula curta de como envelhecer uma cidade inteira sem mostrar uma única pessoa nela.