Confesso que não sei bem o que pensar do momento da realidade virtual, e a entrevista de Andrew Eiche ao Game Developer, publicada em 13 de outubro, me deixou com menos certeza ainda. Eiche é CEO da Owlchemy Labs, estúdio americano comprado pelo Google e conhecido por Job Simulator e Vacation Simulator, e conversou com o site durante a gamescom 2026. A tese dele cabe numa pergunta simples, que ele chama de teste da cafeteria. Você usaria o seu headset sentado numa cafeteria? Se a resposta é não, a VR ainda é um mercado emergente, por mais anos que já tenha.
O raciocínio é menos pessimista do que parece. Para Eiche, os headsets de hoje são o Nintendinho da realidade virtual, e o público jovem que cresce com eles vai envelhecer junto com a tecnologia. Antes de virar coisa comum, a VR precisaria passar por uma espécie de iteração social, até deixar de parecer novidade de um grupo pequeno de entusiastas. Ele cita os óculos Aura, da Xreal, como um formato que começa a ficar discreto o bastante para sair de casa.
O contexto deixa a conversa mais dura. Neste ano, Survios, Twisted Pixel, Sanzaru, Armature e Vertigo Games cortaram equipe ou fecharam, e a própria Valve acaba de tirar de linha o Index, segundo o Road to VR. Eiche atribui parte das demissões a empresas que leram mal o mercado, quando os dados apontavam para jogos sociais e de corpo presente, como Gorilla Tag e Animal Company. A Owlchemy, segundo ele, seguiu o público, e Dimensional Double Shift, o jogo cooperativo de cozinha caótica do estúdio, acabou de bater recorde de jogadores mensais, diários e de sessões, depois de ganhar um modo para um jogador.
O jogo que mais cresce no catálogo da Owlchemy é justamente o que faz você parecer mais ridículo balançando os braços no meio da sala, e ele cresce porque é feito para ser jogado em grupo. Já contei aqui como a VR de 2026 viu o Quest 4 escorregar para 2027, e os óculos leves parecem ser a aposta de todo mundo para atravessar esse intervalo.
Fico pensando se o teste da cafeteria mede mesmo a maturidade da tecnologia ou só a nossa vergonha de parecer estranho em público. O celular também já foi um tijolo constrangedor, e em algum momento a gente parou de reparar. Quanto tempo leva para um aparelho deixar de ser assunto?