Blender muda de comando, fim de uma era e o que vem depois de Ton Roosendaal
Durante décadas, foi impossível falar de Blender sem falar de uma única pessoa. Agora, essa associação entra oficialmente em uma nova fase. A Blender Foundation confirmou a transição de liderança e marcou simbolicamente o fim de uma era que moldou não apenas um software, mas toda uma filosofia de criação digital aberta.
Ton Roosendaal, fundador e principal força por trás do Blender desde os anos 1990, deixa o cargo executivo máximo após mais de 30 anos à frente do projeto. A mudança não acontece de forma abrupta, nem carrega tom de ruptura, mas o impacto é profundo. Pela primeira vez, o Blender passa a ser conduzido sem seu criador no centro das decisões diárias.
O anúncio soa discreto, mas carrega peso histórico. Ton não foi apenas um CEO tradicional. Ele foi curador técnico, porta-voz da comunidade, mediador entre artistas e desenvolvedores, e o responsável por transformar uma ferramenta quase esquecida em um dos softwares 3D mais usados do mundo. Essa trajetória inclui momentos críticos, como a virada para o modelo open source, campanhas de financiamento comunitário e a aproximação com grandes estúdios sem perder a identidade aberta.
A sucessão já vinha sendo preparada nos bastidores há anos. Quem assume a liderança executiva é Francesco Siddi, nome conhecido dentro da própria fundação. Diferente de uma troca externa ou corporativa, a escolha reforça a ideia de continuidade. Siddi conhece o Blender por dentro, já atuou em produção, pipeline, gestão e relacionamento com a indústria, e representa uma geração que cresceu junto com a maturidade do software.
Ton, por sua vez, não desaparece do mapa. Ele passa a integrar um conselho estratégico, mantendo influência institucional e visão de longo prazo, mas sem a pressão da operação diária. É uma passagem de bastão rara na indústria de tecnologia, feita sem crise, sem escândalo e sem a necessidade de “reinvenção forçada”.
O momento da transição também não é aleatório. O Blender vive hoje um de seus períodos mais sólidos. A ferramenta é adotada em animação, cinema, arquitetura, publicidade e desenvolvimento de jogos. Recebe investimento recorrente de grandes empresas, mas continua sendo gratuita e open source. Esse equilíbrio delicado talvez seja o maior desafio da nova liderança, crescer sem se descaracterizar.
A saída de Ton levanta uma pergunta inevitável na comunidade, o Blender consegue manter sua alma sem sua figura central? A resposta curta é que ninguém sabe, e isso é parte da importância do momento. Projetos maduros precisam provar que são maiores do que seus fundadores. Caso contrário, viram legado engessado, não ecossistema vivo.
Ao mesmo tempo, a mudança abre espaço para decisões mais distribuídas, menos dependentes de uma única visão. Em um cenário onde ferramentas 3D disputam artistas, estúdios e estudantes, agilidade, clareza de roadmap e diálogo com a comunidade serão tão importantes quanto princípios filosóficos.
O fim da era Ton Roosendaal não é um encerramento melancólico. É um teste. Um teste de maturidade, de governança e de confiança no próprio modelo open source. Se o Blender passar por ele com a mesma elegância com que chegou até aqui, a próxima década pode ser ainda mais decisiva do que a anterior.
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