Demissões nos games continuam, e a desculpa do “pior já passou” não cola mais
Toda crise tem um momento em que a narrativa começa a soar ensaiada demais. Na indústria de games, esse momento chegou. O discurso de que as demissões seriam apenas um “ajuste pós-pandemia” perdeu força diante dos fatos mais recentes, e janeiro deixou isso claro logo nas primeiras semanas. Não estamos falando de rescaldo, estamos falando de continuidade.
O caso mais simbólico vem da Ubisoft. A empresa iniciou 2026 com uma reestruturação profunda, cancelando projetos, fechando estúdios e promovendo novas rodadas de cortes, o estúdio de Halifax no Canadá é um exemplo disso. A justificativa oficial fala em foco, eficiência e reorganização criativa. O problema é que esse roteiro já foi usado antes, e os resultados seguem os mesmos, menos gente, menos projetos e mais incerteza interna. Quando uma das maiores publishers do mundo ainda corta dessa forma, fica difícil sustentar que o setor esteja se recuperando.
O mesmo vale para gigantes fora do “núcleo tradicional” dos games. A Meta, que apostou pesado em jogos e realidade virtual nos últimos anos, voltou a reduzir equipes ligadas à sua divisão de VR. Não é um corte pontual nem isolado. É mais um recuo estratégico depois de investimentos agressivos que não entregaram o retorno esperado. A mensagem implícita é dura, quando a aposta não se paga rápido, o ajuste vem, e ele costuma cair sobre times inteiros.
Se ainda restava a ideia de que o problema estaria concentrado apenas em grandes corporações inchadas, os estúdios menores tratam de desmontar essa ilusão. A Cloudhead Games, conhecida por projetos de realidade virtual, anunciou cortes que reduziram drasticamente sua equipe. Em empresas desse porte, demitir não é “otimizar”, é colocar a sobrevivência em risco. Não há gordura para queimar, só músculo.
Esses exemplos não são exceções, são sintomas. O padrão se repete, crescimento acelerado, expansão de equipes, múltiplos projetos simultâneos, expectativas infladas e, quando o mercado desacelera ou o retorno não vem no tempo esperado, o freio é puxado de forma brusca. O que muda de empresa para empresa é apenas a escala do impacto.
O mais incômodo é perceber que, mesmo após dois anos seguidos de cortes, a indústria ainda resiste a discutir o problema estrutural. A conversa insiste em fatores externos, pandemia, inflação, mercado instável, enquanto ignora práticas internas como pipelines inflados, dependência excessiva de blockbusters, cronogramas irreais e uma cultura que normalizou o “crescer primeiro, corrigir depois”.
Para quem trabalha na área, o recado já está claro. A instabilidade virou parte do pacote, independentemente do tamanho do estúdio ou do prestígio da marca. Para quem observa de fora, talvez ainda exista a impressão de que o setor está se ajustando para voltar mais forte. Os fatos, porém, contam outra história, a de uma indústria que ainda não aprendeu a crescer sem se machucar no processo.
Chega um ponto em que repetir a mesma explicação deixa de ser estratégia de comunicação e vira negação. As demissões continuam porque o modelo continua o mesmo. Enquanto isso não mudar, o “pior já passou” seguirá sendo apenas uma frase conveniente, não uma realidade.
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